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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Pergunta B - Felizmente há luar!

“(...) a evocação das situações e personagens do passado é, aqui, também, o pretexto (ou a máscara imposta pela censura), para falar do presente, não porque a História se repita mas para dela tirar exemplo.”
Luís Francisco Rebello, in Dicionário da Literatura Portuguesa

Fazendo apelo à tua experiência de leitura da obra Felizmente há luar!, de Luís de Sttau Monteiro, comenta a afirmação transcrita, num texto bem estruturado, de oitenta a cento e trinta palavras.

Tópicos de resposta: 
-         Tempo da escrita – ditadura de Salazar – anulou a liberdade de expressão;
-         Necessidade de encontrar subterfúgios para fugir à censura;
-         A “máscara” utilizada por Luís de Sttau Monteiro consistiu em retratar o passado para espelhar o presente, levando à reflexão crítica com base no representado;
-         Paralelismo histórico-metafórico: presença de poderes ditatoriais; falta de liberdade; repressão; a esperança na liberdade, incorporada em dois generais assassinados (Gomes Freire de Andrade e Humberto Delgado); a ligação do poder à igreja; a justiça vendida ao poder;
-         Teatro épico – efeito de distanciação - século XIX com o pretexto, como metáfora do século XX.
-         Teatro épico como forma de denúncia e arma política;
-         ...


quarta-feira, 29 de abril de 2015

A propósito de Felizmente há luar! - Bertold Brecht

Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.
Bertold Brecht

O que não sabe é um ignorante, mas o que sabe e não diz nada é um criminoso.
Bertold Brecht

INTERTEXTO
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão-me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht


segunda-feira, 27 de abril de 2015

Correção do TPC, p.245 - Felizmente há luar!

1. As didascálias fornecem sempre informações essenciais para a compreensão do texto dramático. A primeira indicação cénica apresenta informações que contribuem para conferir a Manuel uma importância mais destacada de entre os populares. A Manuel, caracterizado pelo autor como “o mais consciente”, cabe iniciar a peça como “única personagem intensamente iluminada, ao centro e à frente do palco” com as suas reflexões, que são a voz do grupo social em que se insere. O código luminoso utilizado adquire extrema importância, já que destaca, completamente, esta personagem, sendo todo o palco o reflexo da escuridão ou abismo em que a personagem se encontra e que a “engole”. Por fim, informa-nos que Manuel está “andrajosamente” vestido, caracterizando-o física e socialmente, inserindo-o no povo miserável.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Citações que podem ser úteis


Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração. (Fernando Pessoa)

Sentir? Sinta quem lê! (Fernando Pessoa)

Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência e a consciência disso! (Fernando Pessoa)

Ser outro constantemente. Não pertencer nem a mim. (Fernando Pessoa)

É em nós que é tudo. (Fernando Pessoa)

Com que ânsia tão raiva quero aquele outrora! (Fernando Pessoa)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Caracterização de Sousa Falcão (p. 136-137) pelos alunos


           
        Sousa Falcão é um homem de ideais, fiel aos seus valores, e grande amigo do general Gomes Freire e de sua mulher, Matilde.
Vive atormentado pela dura realidade imposta pela condenação de Gomes Freire à pena da morte, realidade que devia ser destinada, igualmente, a si. Assume uma atitude derrotista perante a convicção do General, por isso veste-se de “negro”, dizendo estar de luto por ele mesmo (“Ele ainda está vivo, António. Não devia ter vindo de luto. (…) Não estou de luto por ele, Matilde (…)”). Sousa Falcão vê, nos seus valores, os de um homem justo, muito semelhantes aos do seu grande amigo Gomes Freire, todavia, ao contrário deste ele não está condenado à forca, por isso considera que “Quando os justos estão presos, só os injustos podem ficar fora das cadeias”, ou seja, neste momento, ele é um homem “injusto”. Sente-se revoltado e indignado por não partilhar o destino traçado a Gomes Freire (“Fosse eu digno da ideia que de mim mesmo tinha, e estava lá em baixo, em S.Julião da Barra, ao lado de Gomes Freire, esperando a morte… (…) As ideias de Gomes Freire são também as minhas, mas ele vai ser enforcado - e eu não.”). Queixa-se de ser um indivíduo com aparente falta de coragem, e é sempre o homem que fica em segundo plano, na segunda linha (“Faltou-me sempre coragem para estar na primeira linha…”). Rege a sua vida de acordo com os mesmos ideias do General, mas opta por não o demonstrar publicamente, considera-se um cobarde (“(…) dei comigo à beira de lhe chamar louco, para desculpar a minha própria cobardia”), utilizando esta característica para justificar a sua falta de iniciativa.
Sousa Falcão é, portanto, um idealista convicto dos seus ideias, mas que, nos momentos mais marcantes, opta por se situar num segundo plano, mais seguro, contudo menos digno face à luta pelos valores da liberdade, igualdade e fraternidade.

André Cid, 12º1C (2011-12)
 
           António de Sousa Falcão é o “inseparável amigo” do General Gomes Freire D’Andrade na obra Felizmente Há Luar!, sendo para além de Matilde, o único que o apoia incondicionalmente.
            Nesta cena, Sousa Falcão apercebe-se de que devia estar ao lado de Gomes de Freire e passar pelo que ele passou e pelo final inevitável que terá, pois apesar de nenhum dos dois ter feito algo de mal, ambos partilharam as mesmas ideias e desejo de mudança, e só Gomes Freire foi castigado por tal.
            Pelas palavras de Sousa Falcão, percebemos que ele sente que é um fraco e que devia ter tido coragem e enfrentar as consequências com que Gomes Freire está a lidar, afirmando que nem merece ser seu amigo “Fosse eu digno da ideia que de mim mesmo tinha, e estava lá em baixo, em S. Julião da Barra, ao lado de Gomes Freire, esperando a morte…”, pois Sousa Falcão sente culpa por não ser punido tal como Gomes Freire que está sozinho na masmorra, e ele está cá fora, são e livre, apesar de conspirar e partilhar os mesmos ideais que o General, como foi anteriormente referido, mas “Faltou-[lhe] sempre coragem para estar na primeira linha…”, e é essa cobardia que caracteriza esta personagem que se arrepende de não ter feito mais pelo seu fiel amigo.
            Concluindo, Sousa Falcão é um amigo fiel que espiritualmente é capaz de lutar por uma causa, mas a sua cobardia acaba por vencer, impedindo-o de agir.

Inês Mendes, 12º5 (2011-12)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Hoje é o primeiro dia - Sérgio Godinho

Felizmente Há Luar!

Teatro épico/influência brechtiana - II

Bertold Brecht (1898-1956) – dramaturgo, encenador e poeta alemão. Recusa o teatro dramático aristotélico, fundado na ilusão e identificação, e defende, desde 1926, o teatro épico e os seus princípios de distanciação (Verfremdunseffekt). 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Como fazer uma boa caracterização de personagens


Caracterização da personagem General Gomes Freire de Andrade com base nas páginas 126 a 129.

Leitura ativa do excerto – deteção das características do General

Citação
Significado
«Se há santos, Gomes Freire é um deles…»; «Foi um grande privilégio que Deus lhe concedeu – o de viver ao lado de um homem como o general Gomes Freire» Afirmações de Frei Diogo
Caráter do General – pessoa com valores, correta, íntegra, digna, inocente perante o crime de que é julgado;

«…o general pediu-me para a procurar (…) tem pensado em si constantemente.» Afirmação de Frei Diogo
Amor que o General sente por Matilde
«Não faça a Deus o que os homens fizeram ao general Gomes Freire: não O julgue sem O ouvir.» Afirmação de Frei Diogo
Gomes Freire como o “bode expiatório” dos governadores; inocência do general
«Um homem a sério, capaz de palmilhar as estradas da Galileia? Capaz de passar 40 dias no deserto, ou 150 dias metido numa masmorra?» Afirmação de Matilde
Gomes Freire comparado a Cristo, por ser um homem com valores, correto, justo, íntegro, etc
«Esses morrem na forca ou apodrecem nas prisões, não vá a sua presença incomodar a burocracia de Deus!» Afirmação de Matilde
Gomes Freire como alguém cuja presença é incómoda, já que questiona as leis vigentes e é um líder capaz de destronar o regime existente a favor de valores humanos
«Não reza porque viveu tão perto de Deus que nem precisa de se lhe dirigir…» Afirmação de Matilde
O General como crente a Deus, vivendo sempre uma vida digna de um bom cristão

Caracterização

1º parágrafo – frase introdutória de apresentação da personagem;
 Parágrafos seguintes – caracterização da personagem com recurso a levantamentos textuais comprovativos das afirmações feitas;
 Último parágrafo – frase conclusiva acerca da personagem salientando a característica principal da mesma. 

Exemplo:

Linguagem e estilo em Felizmente Há Luar!


            A linguagem é viva e maleável e caracterizadora do estatuto social das personagens, da relação estabelecida entre si e de afectividade. Evidencia-se a diversidade de registos de língua que oscila entre o cuidado e o popular – calão, como por exemplo «idiotas» e «bestas» (Vicente), expressões do nível familiar «não há mas nem meio mas», alguns provérbios «a voz do povo é a voz de Deus», frases em latim, por vezes proferidas com ironia e sarcasmo e diminutivos com tom pejorativo, como «fidalgotes».

Simbologia do título Felizmente Há Luar! - II


      Para D. Miguel, o facto de haver luar permite que as pessoas saiam de casa à noite. O luar como símbolo da hipocrisia, falsidade e aparência de ter luz própria. O luar funcionará pela sua luz, como efeito dissuasor da luta pela liberdade, há uma intenção repressiva, pois esta morte servirá de exemplo - p. 131 
       Para Matilde – o facto de haver luar permite que as pessoas saiam de casa à noite e vejam o exemplo a seguir. Esta frase surge como um grito de esperança, são palavras de coragem e de estímulo para que o povo se revolte contra a tirania dos governantes, assume assim uma função didáctica apelando a que o povo sonhe e lute pela liberdade – p. 140

Simbologia em Felizmente Há Luar! - I



Os elementos simbólicos são portadores de uma dupla dimensão simbólica/ Os símbolos assumem uma dualidade de sentidos para a qual convergem a vida e a morte, numa perspectiva polissémica e dicotómica (bipolarização).

·       Relógio de bolso e colete (p.17): símbolos de riqueza, a que os populares fazem referência de forma irónica e sarcástica, para demonstrarem a grande dicotomia existente entre pobres e ricos;
·       Tambores (p.17, 71, 73 e 77): símbolo da repressão exercida sobre o povo e da opressão do poder sobre eles;
·     Moeda (p.31) – símbolo da humilhação que os mais pobres sofrem e da arrogância e do desprezo que os mais poderosos exercem sobre eles;
·       Três cadeiras pesadas e ricas com aparência de tronos (p.47, 121): símbolos do poder político exercido por D. Miguel Forjaz, do poder militar exercido por Beresford e do poder religioso exercido pelo Principal Sousa; símbolos da regência dos “reis do Rossio”;
·       Púlpito (p.74): símbolo do poder religioso sobre o povo ignorante que vive no obscurantismo;
·      Noite (p.60, 80, 116): símbolo de morte que será convertido em vida através da esperança de um Portugal livre; símbolo das gestações, das germinações, das conspirações que desabrocharão em pleno dia como manifestação de vida;
·       Cadeira tosca (p.83): símbolo da modéstia de Matilde;
·    Cómoda e cadeira do General Gomes Freire (p.84): símbolo dos pertences pessoais do General Gomes Freire e da sua modéstia;
·       Uniforme velho do General (p.84): símbolo de glórias e batalhas passadas, de batalhas ganhas;
·     Moeda de cinco réis (p.107, 119): símbolo da humilhação que os mais pobres sofrem e da arrogância e do desprezo que os mais poderosos exercem sobre eles; símbolo da revolta de Matilde; (p.109): ao pedir a moeda, Matilde assume a responsabilização de não ter compreendido verdadeiramente a situação da miséria do povo; (p.110): moeda enquanto medalha que relembra a luta que Matilde trava pela salvação do General; (p.120): referência às trinta moedas com que Judas foi pago pela sua traição a Cristo; (p.134): símbolo de traição da Igreja, paralelamente a Judas que traiu Cristo, também o Principal Sousa traiu os valores cristãos, trocando-os pelo poder (corrupto e hipócrita);
·      Saia verde (p.114, 137-138): símbolo do amor entre Matilde e o General Gomes Freire e da esperança que a sua morte possa dar lugar à vida e à renovação; símbolo da liberdade por associação a França; símbolo de esperança pela cor; 
.      Fogueira (p.131): símbolo de destruição e de morte, mas também de regeneração e de luz.

Tempo - Felizmente Há Luar!


            Histórico – O tempo retratado na peça é 1817, momento de regime absolutista em que Portugal se tinha aliado a Inglaterra e a corte exilado no Brasil. p.16 «Vê-se a gente livre dos Franceses, e zás! Cai nas mãos dos Ingleses! E agora? Se acabamos com os Ingleses, ficamos nas mãos dos reis do Rossio.».
        

Espaço - Felizmente Há Luar!


            Físico – a ação desenrola-se em Lisboa. Os espaços são nomeados, no entanto não existem indicações cénicas de construção de cenário ilustrativo de nenhum local específico. O cenário faz-se a partir dos efeitos de luz e som. Este espaço é interior e exterior.  Espaço exterior p. 16 «Ilumina-se subitamente…»; Espaço interior p. 47 «Ilumina-se o palco … em três cadeiras…»
            Social – retrato da sociedade de 1817, a opressão, o despotismo, a injustiça, … este espaço social é dicotómico, já que existem de um lado os ricos e poderosos e do outro os pobres e miseráveis.  Pobres p. 16 «Ilumina-se subitamente…»; Ricos p. 36 «O principal Sousa surge no palco, imponentemente vestido»
            Psicológico – O espaço psicológico é, assim como o social, dicotómico, uma vez que coexistem os oponentes e os adjuvantes. P. 85 «Relembrávamos o nosso hotel de Paris…os passeios que dávamos ao longo do Sena…os dias felizes que passámos juntos… o tempo em que sonhávamos voltar a esta malfadada terra…» p.101 «Por quanto tempo é que o vão deixar metido numa masmorra, perdendo aos poucos a fé que tinha na gente desta terra?»