quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Ode Triunfal - Álvaro de Campos (integral)

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica 
Tenho febre e escrevo. 
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,  
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 
Em fúria fora e dentro de mim, 
Por todos os meus nervos dissecados fora, 
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 
De vos ouvir demasiadamente de perto, 
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 
De expressão de todas as minhas sensações, 
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Alberto Caeiro - alguns esclarecimentos

  • Não se deve dizer que Alberto Caeiro é inconsciente, porque este conceito está demasiadamente ligado a Fernando Pessoa e tem um significado que não se aplica a Alberto Caeiro. 
  • Quando se diz que Caeiro preconiza a "simplicidade, inocência e constante novidade das coisas", isso significa que efetivamente ele é uma pessoa simples, inocente, pois não vê segundos sentidos em nada e porque se maravilha com toda a realidade à sua volta, por isso, podemos afirmar que a atitude dele perante o mundo é semelhante à de uma criança, no que diz respeito à simplicidade e maravilhamento.
  • Não se deve dizer que Caeiro não racionaliza, deve dizer-se que ele recusa o pensamento metafísico, considera-o uma inutilidade, já que para ele a percepção da realidade faz-se através dos sentidos, pois: 
    • "cada coisa é o que é"
    • "O que nós vemos das cousas são as cousas. / Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra? / Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos / Se ver e ouvir são ver e ouvir? / O essencial é saber ver" / A realidade é que ele vê o mundo sem necessidade de explicações."
  • Alberto Caeiro deambula pela natureza para melhor a absorver, para poder ter uma simbiose / comunhão / fusão com ela, por ela ser divina, perfeita, única. Caeiro representa um regresso às origens, à essência, à sinceridade plena e a um semi-paganismo, na medida em que crê na divindade das coisas (o que se transforma num panteísmo).  
  • "é sobretudo inteligência que discorre sobre as sensações" - Caeiro compreende o mundo / universo / natureza através das sensações, é isso que ele diz e defende, contudo, nós, leitores, percebemos que tudo o que ele diz é reflexo da inteligência, não só das sensações, mas também do pensamento, embora ele o recuse, e apesar de ter consciência do seu próprio pensamento - "penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa".

domingo, 23 de novembro de 2014

Ricardo Reis - alguns poemas

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto -
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este é o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora,
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.



Ricardo Reis - Características


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Alberto Caeiro - alguns poemas

I

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Eu nunca guardei rebanhos - Alberto Caeiro